Maternidade

Henrique PBPassaram menos de duas semanas desde o nascimento do Henrique e conto-vos um bocadinho sobre o turbilhão de emoções pelas quais estamos a passar.

Começou com um parto atribulado, que durou quase 24 horas, após a minha bolsa ter rompido mas não haver sinais de trabalho de parto. Vários percalços pelo meio, uma indução e muitas dores depois estava cá fora o Henrique. Tinha um plano de parto, feito com a ajuda da Enfermeira Carmen Ferreira, que pelo quadro clínico não pode ser seguido à risca, mas ainda assim terminou tal como eu queria: parto normal, sem cortes, com contacto pele a pele e a dar de mamar nas primeiras horas de vida.

Mas a verdadeira viagem começa depois disto e é tudo menos um conto de fadas. Acredito que existe uma versão idílica tanto da gravidez como da maternidade, que nos é inculcada ao longo da vida. Começa provavelmente em tenra idade, nas brincadeiras dos pais e das mães e é sedimentada em idade mais avançada, quando ouvimos testemunhos de pessoas próximas que nos dizem “a maternidade é a melhor coisa do mundo”, “trazer uma criança ao mundo é uma benção”, “ter um filho nos braços é indescritível”, etc. E não é que estejam errados/as (de todo), até porque tudo isto é verdadeiro a dada altura, porém esquecem-se é de contar que nem tudo é bom e há inclusive partes muito más. Por isso deixo-vos aqui um testemunho honesto, cru e sincero de como tem sido para mim:

1º –  a privação de sono é uma autêntica tortura para mim. Sempre precisei de dormir pelo menos 8h para estar bem e ativa, mas desde o parto que eu e o Pedro dormimos no máximo 2/3h dia e isso deixa-nos de rastos. Nas primeiras noites fartei-me de chorar e tive momentos de completo desespero em que pensei “não vou conseguir fazer isto, em que é que eu me fui meter?”. Seguiam-se depois os remorsos por estar a pensar isto sobre o meu próprio filho e a considerar qualquer outro cenário que não o de “aguentar o barco”. Claro que estas situações se reduzem a momentos em que as hormonas, emoções e exaustão tomam conta de nós e por essa razão são passageiras, mas não deixamos de as sentir.

2º – amamentar permite-nos criar um elo maravilhoso com o bebé, mas é difícil e muitas vezes doloroso. Na minha cabeça amamentar seria algo natural e intrínseco, que surgiria como parte do nosso instinto natural. Mas esse instinto tem vindo a abandonar-nos, a par e passo da nossa evolução, e não lhe podemos confiar essa tarefa. Pelo contrário,  amamentar requer paciência, prática e muita ajuda profissional. São muitos os momentos em que duvidamos da qualidade do nosso leite, se é suficiente, da pega que o bebé está a fazer, etc. E nada melhor do que ter pessoas qualificadas que nos prestam esse apoio, nos orientam e fazem-nos acreditar que vamos conseguir fazer isto a longo prazo (obrigada Carmen Ferreira mais uma vez).

3º –  a capacidade de recuperação do corpo humano é inigualável. Sei que cada corpo tem o seu ritmo, mas posso dizer-vos que neste aspeto o meu não pára de me surpreender. Duas semanas após o parto já não tenho quase barriga e já visto grande parte da minha roupa habitual. Acredito que esta recuperação é fruto do estilo de vida que levo e de ter investido tempo a preparar o meu corpo e mente para a gravidez e pós-parto. Uma alimentação saudável e regrada e o exercício físico durante a gravidez estão a trazer as suas compensações.

4º – a perda de liberdade assusta-me. De um momento para o outro deixei de poder fazer o que quero quando quero. Seja viajar para o outro lado do mundo ou simplesmente tomar banho à hora X. A minha vida passou a ser feita em função de outro ser e apesar de eu racionalizar este aspeto e pensar “estou a sentir isto agora porque eles são muito dependentes nesta fase”, por vezes dou por mim a pensar que nunca terei a mesma liberdade que tinha anteriormente e essa mudança assusta-me.

Claro que escrevo tudo isto “a quente”, claro que isto provavelmente é só uma fase e daqui a 1 ou 2 meses já está tudo melhor, mas não quis deixar de escrever agora, enquanto está fresco, porque certamente não estarei sozinha nos meus medos e dificuldades e acho importante partilhar testemunhos reais e honestos, que não douram a pílula e nos fazem sentir mal por não estarmos a sentir o conto de fadas de que todos falam.

O meu filho é sem dúvida o mais importante da minha vida, não imagino um futuro sem ele e a maternidade traz momentos maravilhosos, mas como em tudo na Natureza, também tem um lado impiedoso e muitas vezes não estamos preparadas para o conhecer.

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5 thoughts on “Maternidade

  1. equemnunca? diz:

    Sofia, conheci seu blog através desse texto, pois a partir de hoje também vou escrever sobre minha maternidade e tudo o que venho descobrindo, por incrivel que pareça também fiquei 24h sentindo dor, e no final tive um parto cesariana, totalmente diferente do que eu imaginava. Amamentar foi mais fácil no inicio, hoje, tem doído cada vez mais, o nenem é um torinho e quer mamar até sangrar o seio. Pense numa dor? Agora multiplica porque ele só quer o seio machucado hahahaha mas no final a gente dar conta, damos conta de tudo. De ser dona de casa, dona do proprio negocio, mãe e mulher ao mesmo tempo. Obrigada pelo texto lindo.

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  2. Maria Pernadas diz:

    Minha querida Sofia. Querido Pedro. Ser pais e isso. Momentos menos bons e momentos fantásticos. Par este período os pais de ambos, os amigos ajudam muito, muitíssimo. E um projecto familiar que engloba mais gente para além dos pais. E um período dificil este primeiro e segundo mês. Lembras te de te dizer para pedires ajuda? E fundamental para que tenhas uns momentos de descanso e de orientação. Mas qd o Henrique te sorrir esqueces deste período turbulento. E vocês vão conseguir apesar das angústias desta primeira viagem. Beijos e um abracinho apertado.

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  3. Anónimo diz:

    Ainda bem que escreves não só pela partilha mas porque daqui a um tempo as hormonas tinham apagado metade da memória para teres vontade de seguir para um segundo cocktail de emoções. Obrigada pela partilha e já sabes que a tua Rafa está aqui sempre para apoiar! ♥️

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